Fim da jornada 6×1 mostra novos caminhos para a gestão
A reorganização da jornada de trabalho pode ser uma estratégia de gestão, e não apenas uma mudança na distribuição das horas trabalhadas. É o que indica a experiência da AngloGold Ashanti, mineradora com 192 anos de história que adotou modelos alternativos de jornada no Brasil, associando qualidade de vida, segurança operacional e continuidade da produção.
A empresa implementou, em 2024, a escala 4×3 para os funcionários administrativos e o modelo 4×4 nas operações subterrâneas. A iniciativa foi desenvolvida antes do avanço das discussões nacionais sobre o fim da escala 6×1 e oferece um exemplo de como organizações tradicionais podem rever práticas consolidadas para responder aos desafios do mundo do trabalho.
A experiência foi apresentada em uma matéria na Revista Exame Virtual no último dia 15 de outubro e levanta uma questão importante para empreendedores e gestores. Como organizar equipes para alcançar resultados sem considerar apenas o tempo de permanência no trabalho?
Planejamento e adaptação da gestão
Na sede corporativa da AngloGold Ashanti, em Nova Lima, Minas Gerais, os funcionários trabalham de segunda a quinta-feira, com três dias de descanso por semana. Nas minas, onde a produção precisa funcionar continuamente, a companhia adotou a escala 4×4, que alterna quatro dias de trabalho com quatro dias consecutivos de folga.
A mudança substituiu, nas operações contempladas, o modelo anterior de seis dias trabalhados para um de descanso. A diferença entre os formatos demonstra que a reorganização da jornada depende das características de cada atividade, especialmente em setores que exigem funcionamento ininterrupto.
Segundo Luiz Otávio de Lima, CEO da AngloGold Ashanti Latam, a decisão foi precedida por pesquisas internas, projetos-piloto e conversas com os funcionários. O processo buscou encontrar uma configuração capaz de preservar a continuidade operacional e, ao mesmo tempo, melhorar as condições de trabalho.
Para empresas de diferentes portes, a experiência reforça a importância de avaliar processos, ouvir as equipes e testar alternativas antes de implementar mudanças estruturais. A gestão da jornada envolve não apenas a definição de horários, mas também a distribuição das atividades, a organização dos turnos e a capacidade de manter a operação funcionando.
Qualidade de vida entra na estratégia de produtividade
Um dos resultados destacados pela companhia está relacionado aos indicadores de segurança. De acordo com o CEO, houve melhora expressiva nesses registros após a adoção dos novos modelos de jornada, especialmente nas ocorrências de alta frequência e baixo impacto, como torções, prensamentos de dedos e acidentes associados ao cansaço e à falta de atenção.
A relação entre descanso e segurança ganha relevância em atividades industriais nas quais a atenção e as condições físicas dos profissionais influenciam diretamente os riscos operacionais.
A mudança também evidencia uma perspectiva de gestão que considera a saúde física e mental como fatores relacionados ao desempenho das equipes.
Nesse contexto, a produtividade deixa de ser avaliada exclusivamente pelo número de dias trabalhados e passa a considerar também as condições em que as atividades são realizadas.
A experiência da mineradora não permite concluir que jornadas reduzidas produzirão os mesmos resultados em qualquer organização. Ainda assim, indica a importância de acompanhar indicadores, identificar fatores de risco e avaliar como a organização do trabalho influencia a segurança e a execução das tarefas.
Resultados financeiros e os desafio empresarial
A adoção de jornadas alternativas ocorreu em um período no qual a AngloGold Ashanti também registrou crescimento financeiro. No primeiro semestre de 2026, a receita global da companhia aumentou 44%, alcançando US$ 6,34 bilhões.
No Brasil, a produção de ouro das operações Cuiabá, em Minas Gerais, cresceu 10% no mesmo período, chegando a 139 mil onças.
Os números demonstram que a empresa ampliou a produção enquanto mantinha os modelos alternativos de jornada. Entretanto, o crescimento financeiro também foi impulsionado pela valorização internacional do ouro, de modo que os resultados não podem ser atribuídos exclusivamente à mudança na escala de trabalho.
Para a gestão empresarial, a distinção é importante. Ou seja, avaliar uma inovação exige observar diferentes variáveis, identificar os fatores que influenciam o desempenho e evitar conclusões baseadas apenas na coincidência entre duas mudanças.
O acompanhamento de indicadores operacionais, financeiros e de segurança ajuda a entender se uma decisão organizacional está contribuindo para os objetivos do negócio e quais ajustes podem ser necessários ao longo do tempo.
Inovação transforma empresas tradicionais
Fundada no Brasil em 1834, a AngloGold Ashanti atravessou diferentes períodos econômicos e transformações tecnológicas. A revisão da jornada integra um movimento mais amplo de modernização das operações, que inclui investimentos em tecnologia e sistemas de monitoramento.
Na mina Cuiabá, que alcança 1.600 metros de profundidade, a companhia utiliza equipamentos operados remotamente, inteligência artificial e monitoramento em tempo real. Mais de 400 roteadores garantem conectividade Wi-Fi no subsolo, permitindo acompanhar a localização dos trabalhadores e contribuir para a resposta em situações de emergência.
A tecnologia, nesse cenário, é empregada para melhorar as condições operacionais e retirar pessoas de áreas de maior risco sempre que possível.
A combinação entre inovação tecnológica e revisão de práticas de gestão mostra que a transformação organizacional não depende necessariamente da idade ou do segmento de uma empresa. Organizações com décadas ou séculos de atuação também podem questionar modelos tradicionais e desenvolver novas formas de trabalhar.
Operações e estratégias de negócio
A experiência da mineradora oferece reflexões para profissionais responsáveis por equipes, operações e estratégias de negócio. Uma delas é a importância de compreender as necessidades dos trabalhadores sem perder de vista as exigências da atividade econômica.
A participação dos funcionários no processo de mudança, a realização de projetos-piloto e o acompanhamento de resultados são elementos que podem ajudar outras organizações a avaliar alternativas de jornada. A aplicação, porém, precisa considerar as particularidades de cada setor, os custos envolvidos, a legislação e os recursos disponíveis.
A discussão também amplia o entendimento sobre produtividade e desenvolvimento profissional. Em vez de associar desempenho apenas à quantidade de horas dedicadas ao trabalho, gestores podem avaliar a qualidade da execução, a segurança, a organização dos processos e as condições necessárias para que as equipes mantenham seus resultados.
Com o debate sobre o fim da escala 6×1 no Brasil, experiências como a da AngloGold Ashanti ajudam a colocar em perspectiva os desafios da reorganização do trabalho e podem encontrar modelos sustentáveis, capazes de conciliar desempenho operacional, segurança e condições adequadas para os profissionais.
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