Renda não define felicidade financeira, afirma CEO da SuperRico
A relação entre dinheiro e bem-estar emocional atingiu um ponto crítico no Brasil. Segundo levantamento realizado pela plataforma SuperRico com mais de 3 mil brasileiros, metade dos problemas de saúde mental enfrentados atualmente pela população está diretamente relacionada às dificuldades financeiras. O dado foi destacado por Carlos Castro, CEO e fundador da SuperRico, durante participação no episódio 13 da segunda temporada do podcast JGTV, exibido em 25 de maio de 2026.
Para o especialista, a questão financeira deixou de ser apenas um problema econômico e passou a ocupar papel central na saúde emocional das pessoas. “Hoje a relação da saúde financeira com a saúde mental, ou seja, 50% dos problemas que a gente tem com saúde mental hoje são resultantes de problemas financeiros”, afirmou.
A conclusão reforça tendências observadas por organismos internacionais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) vêm alertando para o crescimento dos transtornos relacionados ao estresse financeiro, especialmente após a pandemia. No Brasil, o cenário é agravado pelos altos índices de endividamento e pela falta de planejamento de longo prazo.
Segundo Carlos Castro, a pandemia intensificou problemas emocionais que já existiam, mas deixou um legado ainda mais duradouro: a deterioração da saúde financeira de milhões de brasileiros.
“Eu costumo até dizer que existe hoje uma epidemia financeira, porque as pessoas começaram a consumir mais, até como uma maneira de compensar aquela fase em que elas não puderam durante a pandemia”, explicou.
A digitalização do dinheiro também contribuiu para esse cenário. Na avaliação do executivo, ferramentas que trouxeram praticidade, como o Pix, acabaram reduzindo a percepção dos gastos no dia a dia.
“O dinheiro se tornou digital. Isso democratizou o acesso, mas também fez com que a gente perdesse o controle”, disse.
O resultado aparece nos números. De acordo com a pesquisa da SuperRico, oito em cada dez brasileiros possuem algum tipo de dívida. Antes da pandemia, a proporção era de seis em cada dez.
Brasileiro sonha com independência financeira, mas não consegue poupar
O estudo também identificou um contraste importante entre desejo e comportamento financeiro. Embora 60% dos entrevistados afirmem que desejam alcançar a independência financeira, mais da metade não consegue transformar esse objetivo em prática.
Entre os participantes da pesquisa, 54% declararam não possuir qualquer valor reservado para objetivos financeiros e 47% não mantêm nenhuma reserva voltada para a aposentadoria.
Para Carlos Castro, esse comportamento tem raízes históricas.
Segundo ele, décadas de hiperinflação moldaram uma cultura imediatista, dificultando o hábito de poupar e planejar o futuro. Mesmo após mais de 30 anos do Plano Real, o impacto psicológico daquele período ainda influencia a forma como os brasileiros lidam com dinheiro.
“Somos curto-prazistas porque durante muito tempo tivemos que preservar o poder de compra do salário correndo para o supermercado. Essa mentalidade continua presente”, afirmou.
O executivo destaca que o problema se torna ainda mais preocupante diante do aumento da expectativa de vida da população.
“O grande risco hoje é o dinheiro acabar antes da vida”, alertou.
Felicidade financeira não está ligada à quantidade de dinheiro
Um dos pontos centrais da entrevista foi a desconstrução da ideia de que felicidade financeira depende exclusivamente da renda.
Segundo Carlos Castro, existe uma diferença importante entre dinheiro como instrumento de segurança e dinheiro como símbolo de poder.
“Existe uma fronteira entre a segurança e a relação de poder. Quando você não tem o suficiente para sua subsistência, o dinheiro se torna um problema. Mas quando ele passa a representar apenas poder, ele também não traz felicidade”, explicou.
Na avaliação do especialista, a felicidade financeira surge quando há equilíbrio entre renda, padrão de vida e objetivos pessoais.
“Enquanto a gente busca a riqueza em ganhar mais, no fundo ser rico é precisar de menos”, afirmou.
A filosofia, inclusive, inspirou a criação do nome da própria plataforma SuperRico.
“Nós somos ricos não pelo que temos, mas pelo que não precisamos ter.”
Dívidas afetam sono, relacionamentos e produtividade
Durante a conversa, Carlos Castro destacou que os impactos das dificuldades financeiras vão muito além das contas em atraso.
Segundo ele, o endividamento afeta diretamente a qualidade do sono, os relacionamentos familiares, a produtividade no trabalho e a saúde emocional.
“Quem está endividado não consegue dormir direito, tem problemas familiares e carrega uma insegurança constante.”
A pesquisa da SuperRico mediu também o Índice de Felicidade Financeira dos brasileiros. Em uma escala de 0 a 10, a média nacional ficou em 5,2 pontos. Entre pessoas com alto nível de endividamento, o índice despenca para apenas 2,6.
“O brasileiro é naturalmente feliz e resiliente diante das adversidades. Mas quando o assunto é dinheiro, ele se sente inseguro”, observou.
Bets ampliam a crise financeira silenciosa
Outro tema abordado durante a entrevista foi o crescimento das apostas esportivas online.
Carlos Castro acredita que as bets se transformaram em um fator adicional de desequilíbrio financeiro e emocional para milhares de famílias brasileiras.
“As pessoas estão com o orçamento comprometido por causa das apostas. E muitas acreditam que apostar é uma forma de investir dinheiro.”
O especialista alertou para os mecanismos psicológicos presentes nas plataformas de apostas, que estimulam comportamentos compulsivos e dificultam a percepção dos prejuízos.
“A aposta não é investimento. É um jogo de azar criado para faturar em cima da sua perda.”
Segundo ele, o problema é agravado pelo silêncio que cerca o tema.
“Ninguém fala sobre as bets. Todo mundo conhece alguém que aposta, mas quase ninguém admite que está enfrentando dificuldades por causa disso.”
Clareza financeira reduz ansiedade
Ao longo da entrevista, Carlos Castro reforçou que a educação financeira vai muito além de planilhas, investimentos e cálculos matemáticos.
Para ele, o ponto de partida está no autoconhecimento.
“Planejamento financeiro é sobre comportamento. A maneira como a gente lida com as finanças não é uma ciência exata.”
O executivo citou estudos do economista e psicólogo Daniel Kahneman para explicar que a maioria das decisões financeiras nasce da emoção antes de passar pela racionalidade.
“Noventa por cento das nossas decisões são emocionais.”
Por isso, o primeiro passo para reduzir a ansiedade financeira é desenvolver consciência sobre a própria realidade.
“Você precisa olhar de frente para suas finanças. Entender quanto ganha, quanto gasta e por que está gastando.”
Segundo Castro, muitas pessoas acreditam que o problema está na falta de renda, quando na verdade a dificuldade está na ausência de organização e planejamento.
“O orçamento mental não funciona. Toda parcela parece caber, mas no final a conta não fecha.”
Apoio profissional pode acelerar a transformação
Ao encerrar a entrevista, o fundador da SuperRico defendeu que buscar orientação especializada pode ser determinante para quem deseja reorganizar a vida financeira.
Ele comparou o processo ao acompanhamento de profissionais da saúde.
“Quando você quer melhorar sua alimentação, procura um nutricionista. Quando quer melhorar sua saúde financeira, também faz sentido buscar um profissional especializado.”
Segundo Castro, o Brasil já conta com cerca de 12 mil planejadores financeiros certificados, número que ainda considera pequeno diante da demanda crescente por educação financeira.
Para ele, a mudança começa quando a pessoa reconhece que precisa de ajuda e decide agir.
“Você não vai conseguir construir disciplina apenas com motivação. A motivação vai e volta. O que transforma a vida financeira é a disciplina.”
Em um país onde oito em cada dez pessoas convivem com dívidas e onde metade dos problemas emocionais está ligada ao dinheiro, a felicidade financeira deixa de ser um conceito abstrato e passa a representar uma necessidade concreta. Para Carlos Castro, ela não depende de ganhar mais, mas de desenvolver uma relação mais consciente, equilibrada e saudável com o dinheiro.
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