Jeff Lara defende que empresas precisam diagnosticar emoções
A segurança psicológica nas empresas não será construída por formulários, relatórios ou pesquisas de clima isoladas. Para o especialista em desenvolvimento humano Jeff Lara, a verdadeira compreensão dos riscos psicossociais e dos desafios comportamentais das equipes acontece quando as pessoas são colocadas em situações práticas que revelam sentimentos, percepções e padrões de relacionamento.
Para ele, as dinâmicas corporativas, quando conduzidas corretamente, permitem identificar com mais precisão as emoções presentes no ambiente de trabalho e podem se tornar uma importante ferramenta para atender às exigências da NR-1, que passou a exigir maior atenção aos riscos psicossociais nas organizações.
A análise foi apresentada por Jeff Lara durante participação no episódio 14 da segunda temporada da JGTV, exibido em 02 de junho de 2026. Especialista em treinamentos experienciais, team building e desenvolvimento humano, ele defendeu que muitas empresas ainda tratam essas práticas como entretenimento, desperdiçando seu potencial estratégico.
“Tudo o que tem mais verdade numa expressão, numa forma de você reagir ou num relatório respondido? Os nossos sentidos e emoções não têm válvula de negatividade. O corpo reage primeiro. Depois a pessoa racionaliza aquilo”, afirmou.
Segundo Lara, as empresas vivem uma contradição. Ao mesmo tempo em que investem cada vez mais em people analytics e cruzamento de dados, deixam de observar aspectos comportamentais que não aparecem nos indicadores tradicionais.
“O dado mais importante de uma empresa está no people analytics. Mas os dados nunca foram tão fragmentados quanto hoje”, disse.
Ludicidade não é infantilidade
Ao longo da entrevista, Jeff Lara procurou desfazer um dos principais preconceitos existentes no mercado corporativo: a associação entre atividades lúdicas e práticas infantis.
Segundo ele, a ludicidade tem origem em métodos de aprendizagem e desenvolvimento utilizados há décadas e encontra respaldo em pensadores clássicos e contemporâneos. Ele citou desde filósofos como Platão e Aristóteles até estudiosos da educação e da aprendizagem, como Jean Piaget.
“Ludicidade não tem nada a ver com infantilidade”, ressaltou.
O especialista explicou que atividades lúdicas criam ambientes seguros para experimentação, permitindo que profissionais saiam dos seus padrões habituais de comportamento, testem novas formas de agir e desenvolvam competências relacionadas à comunicação, colaboração e resolução de problemas.
“A gente transforma aquele momento num laboratório de emoções”, definiu.
Estudos da área de aprendizagem experiencial apontam que a retenção do conhecimento tende a ser significativamente maior quando o indivíduo participa ativamente de uma experiência prática, em vez de apenas receber informações de forma passiva. Essa abordagem é amplamente utilizada em programas de desenvolvimento de liderança, treinamento comportamental e educação corporativa em todo o mundo.
O erro de promover técnicos sem preparar líderes
Durante a conversa, Jeff Lara também abordou um problema recorrente nas organizações: a promoção de profissionais tecnicamente excelentes para cargos de liderança sem o devido preparo comportamental.
“O que as empresas fazem? Pegam o seu melhor técnico, colocam na liderança. Aí você ganha um líder inapto e perde um técnico excelente”, afirmou.
Na avaliação dele, grande parte dos conflitos corporativos nasce da dificuldade dos gestores em compreender que diferentes pessoas possuem diferentes formas de trabalhar, aprender e se relacionar.
Segundo Lara, muitos líderes tentam reproduzir com suas equipes exatamente os comportamentos que os fizeram crescer na carreira, ignorando a diversidade de perfis existentes dentro dos times.
“Quando a liderança ocupa um cargo, a primeira coisa que ela faz é querer que as pessoas ajam da maneira como ela agia.”
A observação encontra respaldo em pesquisas de comportamento organizacional. Dados da consultoria global Gallup mostram que gestores têm impacto direto sobre os níveis de engajamento, bem-estar e produtividade dos colaboradores, sendo responsáveis por até 70% da variação no engajamento das equipes.
Dinâmicas corporativas exigem método
Outro ponto destacado pelo especialista é que dinâmicas de grupo só geram resultados quando fazem parte de um processo estruturado.
Ele criticou a banalização do team building nos últimos anos, especialmente após a pandemia, quando muitas atividades passaram a ser realizadas apenas como momentos de entretenimento.
“Team building não é entretenimento. Dinâmica de grupo não é lazer”, afirmou.
De acordo com Lara, o processo correto começa pela criação de um desafio lúdico capaz de gerar metáforas e estimular comportamentos espontâneos. Em seguida, é necessário ouvir os sentimentos despertados durante a atividade e relacioná-los com a realidade cotidiana da empresa.
“Primeiro você oferece um desafio. Depois você escuta os sentimentos. A partir deles você identifica o que é verdade naquele grupo e traz soluções para o dia a dia.”
Segundo ele, quando essa metodologia é ignorada, a atividade perde completamente seu propósito.
Segurança psicológica e NR-1 ganham protagonismo
Um dos momentos mais relevantes da entrevista foi a relação estabelecida entre as dinâmicas comportamentais e as novas exigências da NR-1.
A atualização da norma ampliou a atenção das empresas para os fatores psicossociais presentes no ambiente de trabalho, exigindo maior identificação, avaliação e gerenciamento de riscos relacionados à saúde mental dos trabalhadores.
Para Jeff Lara, os treinamentos experienciais podem funcionar como uma ferramenta complementar importante nesse processo.
“Em quatro horas você consegue ter um diagnóstico emocional daquele grupo. Depois, com uma ou duas dinâmicas, você consegue mapear comportamentos e construir um plano de ação.”
Ele argumenta que muitas empresas ainda tentam compreender questões emocionais exclusivamente por meio de pesquisas e formulários, quando parte significativa das informações está presente nas interações cotidianas e nos comportamentos observáveis.
A segurança psicológica, conceito amplamente estudado pela professora Amy Edmondson da Harvard Business School, refere-se justamente à percepção de que as pessoas podem se expressar, cometer erros, fazer perguntas e apresentar ideias sem medo de punições ou constrangimentos. Diversos estudos relacionam ambientes psicologicamente seguros a níveis mais elevados de inovação, aprendizagem e desempenho organizacional.
Trabalho híbrido exige mais conexão humana
Ao comentar os desafios do trabalho híbrido, Jeff Lara afirmou que muitas empresas ainda não conseguiram criar motivos relevantes para que os colaboradores valorizem os momentos presenciais.
Segundo ele, o problema não está no modelo híbrido em si, mas na falta de clareza sobre o propósito das interações.
“Se a pessoa vai para a empresa para fazer exatamente o que faria em casa, realmente ela não vê sentido.”
Nesse contexto, as dinâmicas de grupo e os momentos de construção coletiva podem desempenhar um papel importante, desde que sejam conduzidos por profissionais preparados.
“Ela precisa entender o que a empresa faz e qual é o papel dela dentro dessa empresa. Quando isso acontece, nasce a confiança. E da confiança nasce o comprometimento.”
Para o especialista, a conexão emocional entre colaborador e organização se tornou um dos principais desafios da gestão contemporânea.
O conselho para líderes e profissionais
Ao encerrar a entrevista, Jeff Lara resumiu em três pilares aquilo que considera essencial para quem deseja liderar equipes ou atuar com desenvolvimento humano.
“Primeiro: gostar de gente. Se você não gosta de gente, não assuma um cargo de liderança. Seja o melhor técnico possível.”
O segundo elemento é a coragem para lidar com conversas difíceis, dar e receber feedbacks e construir relações autênticas.
Por fim, ele destacou a importância da transparência.
“Gostar de gente, ter coragem e criar um ambiente transparente. Essas são competências fundamentais tanto para líderes quanto para facilitadores.”
Para Lara, em um mercado cada vez mais impactado pela tecnologia e pela inteligência artificial, a capacidade de compreender pessoas continuará sendo um dos diferenciais mais valiosos para empresas e profissionais.
“Ajustar a comunicação e respeitar que cada pessoa é única talvez seja a habilidade mais importante para o futuro do trabalho.”
Share this content:



Publicar comentário