Desafio entre gerações nas empresas supera a questão da idade
A convivência entre diferentes gerações nas empresas deixou de ser apenas um desafio relacionado à idade. O verdadeiro problema está na velocidade das transformações tecnológicas, no excesso de informações e em modelos de gestão que ainda não acompanharam as mudanças da sociedade. Essa é a avaliação da sócia-fundadora da Plongê, Renata Fabrini, que participou do episódio 04 da terceira temporada da JG TV, apresentado por Jussara Goyano e exibido em 7 de julho de 2026.
Segundo a executiva, o mercado costuma concentrar o debate nas diferenças entre jovens e profissionais mais experientes, quando, na prática, ambos enfrentam as mesmas angústias diante de um ambiente de trabalho cada vez mais acelerado. “Eu sinto que são duas gerações oprimidas. As duas pontas estão vivendo essa ansiedade coletiva, essa infotoxicação, transições muito rápidas, tecnologia crescente e também uma falta de perspectiva”, diz Renata.
A percepção de Renata encontra respaldo em estudos internacionais. O relatório Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, aponta que as rápidas mudanças tecnológicas e a inteligência artificial estão transformando competências profissionais em uma velocidade sem precedentes, tornando habilidades comportamentais, como pensamento crítico, curiosidade e aprendizagem contínua, ainda mais relevantes.
O conflito geracional e as diferenças culturais
Durante a entrevista à JG TV, Renata questiona a ideia de que o choque entre gerações seja provocado apenas por diferenças culturais. Para ela, boa parte dos conflitos nasce da incapacidade de compreender o contexto do outro.
Ela compara o ambiente corporativo às discussões vividas dentro da própria família. “Hoje, muitas vezes, o que a gente conversa é: vamos tentar ver de onde cada um está partindo. O que aquela pessoa viveu? O que ela aprendeu? O que ela ainda pode aprender com o momento atual?”, comenta.
Na avaliação da especialista, empresas e profissionais perderam uma habilidade essencial: “A gente perdeu a capacidade de parar para ouvir o outro. A gente simplesmente julga, infere e não abre espaço para perguntar: ‘Por que você está me falando isso?”.
Essa dificuldade acaba reforçando estereótipos, como a ideia de que a geração Z seria “mimimi” ou que profissionais mais experientes seriam resistentes às mudanças. Para Renata, esses rótulos impedem que organizações aproveitem o potencial da diversidade geracional.
Liderança consciente é o ponto de equilíbrio
Como empresa especializada na seleção de executivos de alta liderança, a Plongê acompanha diariamente os desafios enfrentados por gestores diante das mudanças no mercado.
Para Renata, o papel da liderança deixou de ser controlar pessoas para criar ambientes onde elas consigam dialogar. “O clash geracional passa por esse lugar da liderança que está, ou não está, consciente do que está acontecendo no nosso entorno”, analisa.
Ela afirma que muitos modelos de gestão continuam baseados em controle e comando, enquanto os profissionais buscam ambientes mais colaborativos e corresponsáveis. “Estamos vendo uma tendência de voltar para um modelo de controle, quando o que deveríamos fazer é trabalhar a corresponsabilização das pessoas”, diz a especialista.
Inteligência artificial exige boas perguntas
Outro tema abordado no episódio foi o avanço da inteligência artificial. Na visão da especialista, o maior diferencial competitivo não será dominar ferramentas, mas desenvolver capacidade crítica para utilizá-las. Para Renata, o melhor uso da IA acontece com boas perguntas. Você precisa saber exatamente o que quer tirar dela.
Ela alerta que a tecnologia pode tanto ampliar a capacidade humana quanto aumentar o comportamento automático. “Se eu vivo num mundo em que não paro para refletir, acho que a IA vai responder tudo por mim. E ela não vai responder da melhor forma sempre”.
O relatório AI Index Report 2025, produzido pela Stanford University, também destaca que as competências humanas continuam sendo determinantes para o uso responsável da inteligência artificial, especialmente pensamento crítico, julgamento e supervisão humana.
Segurança psicológica é mais importante do que processos
Questionada sobre como as empresas podem reduzir conflitos entre diferentes gerações, Renata defende que o foco deve estar menos em regras formais e mais na qualidade das relações. “O ambiente precisa promover conversas genuínas e segurança psicológica para que as pessoas possam fazer perguntas, ter dúvidas e se colocar”, avalia a especialista.
Ela afirma que muitos gestores evitam nomear problemas por receio de conflitos: “Não falar sobre o que está acontecendo é muito mais perigoso do que não saber lidar com a situação”.
Segundo a executiva, até processos difíceis, como demissões decorrentes da adoção da inteligência artificial, precisam ser conduzidos de maneira mais humana. “A gente tem visto pessoas sendo demitidas por e-mail. É necessário isso? Quanto tempo poderia ser investido para cuidar melhor dessas relações?”, pergunta Renata.
A importância da segurança psicológica também é defendida por pesquisas do Google, no projeto Project Aristotle, que identificou esse fator como o principal elemento presente nas equipes de maior desempenho.
Autoconhecimento é a principal competência para qualquer geração
Ao final da entrevista à JG TV, Renata resumiu o principal conselho para jovens profissionais, executivos experientes e empresários.
Segundo ela, antes de aprender novas ferramentas ou tecnologias, é preciso investir no próprio desenvolvimento. Quanto mais você se conhece, mais entende o que te move e faz melhor aquilo que precisa fazer.
Ela defende que processos como terapia, coaching, mediação organizacional e outras formações ampliam repertório e fortalecem a liderança. “Quando você se conhece, consegue dar espaço para que o outro também se mostre”, diz.
Para a especialista, organizações que desejam aproveitar a riqueza da diversidade geracional precisarão abandonar respostas prontas e estimular ambientes onde perguntar seja tão importante quanto responder. “Hoje, quem me ensina coisas na empresa tem 22 ou 23 anos, e eu acho isso bárbaro. Poder nomear que eu não sei também é muito importante”, finaliza.
A mensagem final da entrevista reforça que o desafio das empresas não está em conciliar gerações, mas em construir culturas organizacionais capazes de transformar diferenças em aprendizado coletivo, uma competência que tende a se tornar cada vez mais estratégica em um mercado impulsionado pela tecnologia e pela inteligência artificial.
Assista o programa completo:
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