Executivos adoecem ao sustentar a imagem de invencibilidade
O maior risco para a saúde emocional de empresários e executivos não está apenas na pressão por resultados, mas na crença de que líderes não podem demonstrar fragilidade. Para o psicanalista e mentor de executivos, Rogério Bragherolli, essa tentativa permanente de sustentar uma imagem de invencibilidade é um dos fatores que mais adoecem quem ocupa posições de liderança.
Durante participação no episódio especial da JG TV Casa Aberta, dedicado ao tema “Saúde emocional do empreendedor: o custo que ninguém calcula”, Bragherolli afirmou que muitos profissionais chegam ao consultório carregando uma obrigação silenciosa de nunca falhar.
“O executivo, principalmente no mais alto nível, pensa: eu não posso errar, eu não posso chorar, eu não posso não saber. Eu tenho que ser o fortão, o mais inteligente, o melhor. E nessa ele acaba errando“, afirmou.
A reflexão surgiu durante a conversa conduzida pela jornalista Jussara Goyano, ao lado da CEO da Amakha Paris, Denise Lemos, e do educador financeiro Deivyd Barros, no terceiro episódio da terceira temporada da JG TV Casa Aberta, exibido em 30 de junho de 2026.
Segundo Rogério, o problema vai além da cobrança imposta pelas empresas. Grande parte da pressão nasce da forma como o próprio executivo interpreta seu papel dentro das organizações.
Comprometer a carreira
Na prática, muitos profissionais acreditam que demonstrar insegurança pode comprometer a própria carreira.
Como consequência, deixam de pedir ajuda, evitam dividir dificuldades e acumulam conflitos que poderiam ser resolvidos ainda no início.
O psicanalista compara esse comportamento ao desgaste de uma sociedade empresarial. “Você tem um desentendimento hoje, deixa para lá. Deixa para lá um dia, dois dias. Daqui a pouco essa fenda virou um buraco que você não consegue mais corrigir. E aí você perde amizade, perde dinheiro e perde um monte de coisa“, explicou.
Especializado no acompanhamento de executivos e sócios, Rogério defende que muitos conflitos empresariais não começam por questões financeiras, mas pela ausência de comunicação.
Segundo ele, sua atuação reúne elementos da psicanálise e da consultoria estratégica justamente para identificar pontos que, muitas vezes, os próprios empresários deixam de perceber. A experiência nasceu depois de décadas ocupando posições executivas em grandes empresas.
Ex-vice-presidente de multinacional, ele percebeu que psicólogos frequentemente atendiam líderes sem conhecer a realidade corporativa, seus indicadores, estruturas organizacionais e desafios cotidianos.
Foi esse vazio que motivou sua formação em psicanálise voltada especificamente ao universo empresarial.
Redes sociais não devem ser referência
Ao longo do bate-papo, Rogério também chamou atenção para um fenômeno que considera cada vez mais preocupante: a comparação permanente estimulada pelas redes sociais.
Segundo ele, empresários e executivos passaram a medir suas carreiras por referências muitas vezes irreais. “O fundo do poço talvez seja o lugar mais frequentado do mundo. Só que ninguém tira selfie nele“, afirmou.
Para o especialista, a exposição constante a histórias de sucesso cria uma falsa percepção de que todos prosperam sem dificuldades. “A gente precisa tomar cuidado com o que está se comparando. Não posso me comparar sempre com o mais bonito, o mais rico, o mais famoso“, alertou.
Na avaliação do psicanalista, essa comparação permanente produz frustração, ansiedade e sensação de incompetência, principalmente entre profissionais que ocupam cargos de alta responsabilidade.
Outro ponto destacado durante a entrevista foi a transformação do mercado executivo. Rogério observou que, embora o mercado de trabalho registre aumento de vagas em alguns segmentos, posições de liderança vêm se tornando cada vez mais escassas.
As oportunidades da integração de gerações
Citando dados oficiais do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), ele afirmou que o Brasil perdeu centenas de milhares de vagas gerenciais nos últimos anos, enquanto a tecnologia e a inteligência artificial aceleram o achatamento das estruturas organizacionais.
Segundo Rogério, muitos executivos chegam aos 55 ou 60 anos sem planejamento financeiro compatível com o padrão de vida construído ao longo da carreira. Ele observa que o adiamento dessas conversas costuma ampliar o sofrimento emocional.
“As pessoas vão procrastinando. Dizem que esse problema é para daqui a cinco anos. Depois esses cinco anos chegam“, afirmou. Ao discutir o comportamento das novas gerações, Rogério evitou uma visão pessimista sobre a Geração Z.
Na avaliação dele, o choque entre profissionais experientes e jovens pode representar uma oportunidade de crescimento para as empresas. “Eu não vejo conflito de gerações. Vejo oportunidade, se isso for bem direcionado“, disse.
O especialista defendeu que organizações mais diversas tendem a produzir decisões melhores justamente porque reúnem experiências diferentes.
Para ele, líderes mais experientes contribuem com repertório técnico e visão estratégica, enquanto profissionais mais jovens oferecem novas perspectivas, inovação e capacidade de adaptação. Essa integração, entretanto, depende de ambientes emocionalmente seguros.
Ao comentar os desafios enfrentados por jovens profissionais, Rogério também reforçou a importância de desenvolver competências comportamentais antes mesmo das habilidades técnicas. “Primeiro você tem que ter vontade. Depois disciplina. E espírito colaborativo“, afirmou.
Segundo ele, essas características continuam sendo decisivas para qualquer trajetória profissional sustentável.
Líderes emocionalmente saudáveis
As reflexões apresentadas durante a JG TV Casa Aberta encontram respaldo em estudos internacionais.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que ansiedade e depressão gerem perdas superiores a US$ 1 trilhão por ano em produtividade global. Já a Organização Internacional do Trabalho (OIT) destaca que ambientes psicologicamente seguros favorecem inovação, retenção de talentos e desempenho das organizações.
No Brasil, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) também aponta que fatores como sobrecarga, insegurança profissional, pressão por resultados e jornadas prolongadas estão entre os principais elementos associados ao adoecimento mental relacionado ao trabalho.
Para Rogério, reconhecer limites não representa fraqueza. Ao contrário. Segundo ele, líderes emocionalmente saudáveis constroem empresas mais resilientes justamente porque compreendem que ninguém precisa carregar sozinho o peso das decisões. “Dá para trabalhar isso se a gente sentar, se planejar e rever alguns conceitos“, concluiu.
O programa completo está disponível no canal da JGTV no YouTube.
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