Jurídico estratégico pode evitar prejuízos e proteger empresas
Empresas podem estar perdendo dinheiro não apenas por vender pouco, mas também por não identificar riscos jurídicos presentes na própria operação. Para a advogada Cris Dorneles, o jurídico estratégico deve atuar antes que os problemas se transformem em processos, ajudando empresários e profissionais a avaliar riscos, custos e consequências de decisões que podem comprometer a saúde financeira do negócio.
“O jurídico quando chega na fase de processos é a fase que a gente já não tem muito mais o que fazer”, afirmou Cris durante entrevista à JG TV. Para ela, a atuação preventiva permite que a empresa compreenda os riscos envolvidos antes de tomar uma decisão. “O jurídico estratégico vem para essa tomada de decisões”, explicou.
A especialista foi entrevistada por Jussara Goyano no episódio “Empreender sem proteção jurídica pode custar muito mais caro do que você imagina”, da terceira temporada da JG TV, exibido em 11 de agosto de 2026. Na conversa, ela abordou contratos, contratação de prestadores, compliance, LGPD, trabalho híbrido, inteligência artificial, assédio moral, NR-1 e outros aspectos que podem gerar impactos financeiros para empresas de diferentes portes.
Jurídico não deve ser visto apenas como custo
Um dos principais pontos levantados por Cris Dorneles é a percepção de que a assessoria jurídica representa apenas uma despesa. Na avaliação da advogada, essa visão faz com que empresas procurem ajuda somente quando o problema já está instalado.
“Muitos profissionais e muitas empresas entendem o jurídico só como custo e ele não é um custo”, afirmou. Segundo ela, a atuação preventiva permite avaliar uma decisão antes que ela produza consequências difíceis de reverter.
Um contrato sem análise jurídica, por exemplo, pode deixar de prever situações importantes para a operação. O mesmo pode acontecer quando a empresa muda procedimentos, contrata terceiros ou altera sua estrutura sem avaliar previamente os possíveis efeitos.
Para Cris, o raciocínio deve considerar três dimensões: risco, investimento e retorno. “Qual é o risco que eu vou correr? O risco que eu vou correr é tal. O investimento que eu vou ter é tal. O retorno financeiro que eu vou ter. Com base nisso, eu vou tomar minha decisão se eu quero continuar ou não”, explicou.
Contratos precisam acompanhar a realidade do negócio
Outro alerta da advogada diz respeito aos contratos. Segundo ela, não basta elaborar um documento e mantê-lo durante anos sem revisão. Mudanças na função de funcionários, na operação, no mercado e nas relações com clientes podem exigir alterações nas cláusulas.
“Todos os processos precisam ser revistos e é isso que o jurídico vai fazendo para você”, afirmou. Cris contou que recentemente revisou com uma cliente um contrato elaborado no final de 2024. Depois de ser utilizado ao longo de 2025, o documento passou a apresentar pontos que precisavam ser atualizados diante das novas demandas dos clientes.
A adequação também deve considerar o tamanho e a realidade de cada empresa. A especialista rejeita a ideia de que um contrato necessariamente precisa ser extenso e complexo para oferecer proteção.
“O jurídico tem que adaptar tua realidade”, afirmou. Em um dos exemplos apresentados na entrevista, um cliente precisava de um documento extremamente simples porque seus contratos eram preenchidos manualmente no momento da venda. A solução foi adaptar o conteúdo e manter apenas as cláusulas consideradas essenciais para aquela operação.
O menor preço nem sempre representa a melhor decisão
A preocupação excessiva com custos também pode gerar riscos. Ao falar sobre a contratação de prestadores de serviço como pessoa jurídica, Cris destacou que escolher apenas pelo menor valor pode ser uma decisão financeiramente equivocada.
“Eu acho que a preocupação só com o custo, só valor. Eu acho que esse é o grande erro”, afirmou. Para ela, pagar um pouco mais por uma contratação com condições mais adequadas pode reduzir riscos futuros e evitar prejuízos.
A mesma lógica vale para empresas que acreditam que precisam aumentar as vendas para melhorar o faturamento. Antes de buscar mais clientes, segundo a especialista, é necessário verificar se existem gargalos internos provocando perdas.
“Às vezes você não tá faturando pouco por poucas vendas, você tá perdendo dinheiro em vários outros gargalos que se você tivesse organizado você deixaria de perder”, explicou.
LGPD e inteligência artificial e a necessidade de proteção
A transformação digital também amplia os desafios jurídicos. Home office, trabalho híbrido, compartilhamento de informações e uso de ferramentas de inteligência artificial criaram novas situações que precisam ser consideradas pelas empresas.
Cris alertou que organizações que trabalham intensamente com dados devem estabelecer critérios tecnológicos para evitar violações, especialmente diante das obrigações relacionadas à proteção de dados e confidencialidade.
A advogada também destacou que contratos de trabalho precisam acompanhar a evolução das funções. Um profissional que inicialmente não tinha acesso a dados sensíveis pode, depois de uma promoção, passar a lidar com informações estratégicas.
“Nós temos que fazer um novo contrato com esse teu funcionário, buscando proteger os dados que você disponibiliza para ele atuar”, explicou.
A inteligência artificial pode ser utilizada como ferramenta de apoio, mas não substitui a análise jurídica. Segundo Cris, sistemas de IA produzem respostas de acordo com os comandos recebidos e podem criar contratos aparentemente adequados, mas incompatíveis com a legislação ou com a realidade jurídica brasileira.
“Ele faz o que você pede”, afirmou. A especialista explicou que profissionais do Direito também utilizam essas ferramentas, mas sabem avaliar o que pode ou não ser aplicado.
WhatsApp também pode gerar evidências trabalhistas
A comunicação digital é outro ponto que exige atenção. Segundo Cris, mensagens de WhatsApp podem ser utilizadas como prova em processos trabalhistas, inclusive para demonstrar horários de trabalho.
“Ela serve tanto para controle de muitas coisas, mas também serve para controle de prova se a gente precisar num processo”, afirmou.
Isso significa que empresas precisam estabelecer canais oficiais de comunicação e orientar gestores e funcionários sobre sua utilização. Uma mensagem enviada fora do horário de trabalho pode ajudar a demonstrar que havia atividade profissional naquele período.
A especialista defendeu, por isso, que empresas com equipes em home office ou regime híbrido adotem mecanismos de controle de jornada e estabeleçam regras claras para a comunicação.
“Eu acho que isso é importante a gente ter definir que o canal oficial vai ser esse e esse aquele e utilizar ele a partir de então”, explicou.
NR-1 coloca documentação no centro da prevenção
A gestão de riscos relacionados ao ambiente de trabalho também ganhou espaço na entrevista. Ao comentar a NR-1, Cris destacou a importância da documentação para demonstrar que a empresa adotou as medidas necessárias.
“O grande trunfo da NR1 é a exigência da documentação de tudo”, afirmou.
Na avaliação da advogada, manter registros de procedimentos, treinamentos, entrega de equipamentos e outras medidas de prevenção ajuda a empresa a comprovar suas ações caso surja uma disputa judicial.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado a diferentes áreas da gestão. “Você tendo a comprovação de tudo, já te facilita”, explicou.
Assédio moral exige atenção à forma de cobrança
A relação entre cobrança de metas e assédio moral também foi discutida. Cris explicou que estabelecer metas, por si só, não caracteriza assédio. O problema aparece quando a cobrança envolve exposição vexatória, humilhação ou metas deliberadamente impossíveis de serem alcançadas.
Entre os exemplos citados está a exposição pública de um funcionário que não atingiu determinada meta, especialmente quando acompanhada de comparações depreciativas com colegas. Outro cenário seria a criação de metas que ninguém consegue alcançar, acompanhadas de ameaças ou constrangimentos.
“Os pontos mais fortes de um assédio moral são esses casos, que você expõe a pessoa de forma vexatória”, explicou. Ela também destacou a importância de que as metas sejam claras, formalizadas e aplicadas de maneira coerente aos profissionais que ocupam a mesma função.
Pequenas empresas também podem buscar apoio jurídico
A necessidade de planejamento jurídico não se restringe às grandes corporações. Para Cris, pequenos e médios empreendedores também podem buscar profissionais ou escritórios para demandas específicas, sem necessariamente manter um departamento jurídico interno.
“Você pode ter parceiros estratégicos”, afirmou. Segundo ela, existem modelos de contratação por demanda ou de assessoria mensal que permitem que o empreendedor tenha apoio para contratos e decisões sem precisar estruturar um departamento próprio.
A especialista também defendeu que o Direito precisa ser acessível e adaptado à realidade de cada negócio. Para ela, o profissional jurídico não deve apenas burocratizar processos, mas compreender a operação e encontrar soluções aplicáveis.
“Eu tenho que me entender a realidade do cliente”, afirmou.
Essa visão também muda a relação entre jurídico e empreendedor. Em vez de procurar um advogado somente depois de receber uma notificação ou enfrentar um processo, a empresa pode utilizar o conhecimento jurídico como parte da estratégia de gestão.
No encerramento da entrevista, Cris reforçou que o empreendedor não precisa dominar todos os detalhes da legislação, mas deve assumir a responsabilidade de buscar informação e apoio especializado.
“Então, que eu acho que a gente tem que buscar um pouco de informação também, fazer a nossa parte e não esperar que o estado vá fazer pela gente”, afirmou.
Para a advogada, o crescimento sustentável passa justamente por essa combinação entre informação, planejamento e suporte profissional. “Eu entendo que se você não consegue, por exemplo, aplicar um contrato para quem faz serviço de RH, para uma pessoa que faz entrega logística, por mais que você fale que você vai usar o mesmo modelo de contrato, é totalmente diferente.”
Assim, o jurídico estratégico deixa de ser apenas uma ferramenta para lidar com conflitos e passa a ocupar um papel preventivo na gestão. Ao antecipar riscos, revisar contratos, organizar processos e acompanhar mudanças na legislação, a empresa pode tomar decisões com mais informação e reduzir a possibilidade de que problemas jurídicos se transformem em prejuízos financeiros.
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